DESPREZO

dezembro 18, 2007

Odeio o pós-modernismo, ou antes, mais amplamente, a pós-modernidade tanto quanto é posível. Meu desprezo por ela só é comparável àquele que nutro pelas atendentes de telemarketing.

INCOMPLETOS (2)

dezembro 17, 2007

Escreveu-me o sr. Martins Ribeiro cerca de um mês atrás, pouco antes de sair seu “Incompletos”, onusto de uma daquelas crises de insegurança própria de artistas, perguntando-me, a respeito do final de um conto, se deveria escrevê-lo utilizando hífens para os diálogos ou apenas separando as falas das personagens com vírgulas. Ora, sendo este último procedimento derivado de técnica moderna exaustivamente empregada pela subliteratura contemporânea, optei imediatamente pelo primeiro. Após ler e reler o seu livro e perceber que não acatou minha opinião, no entanto, vejo que errei. O que, apesar de raro, às vezes acontece.

Em “Incompletos”, o sr. Martins Ribeiro usa, não apenas desse, mas de outros recursos modernos, como do fluxo de consciência, por necessidade de expressão e não por hebetismo, como é o caso de onze em cada meio escritor brasileiro da atualidade. O resultado disso é, precisamente, o que os modernos queriam em 22 e que, tendo virado norma, tornou-se obsoleto: uma linguagem ágil que dá vazão à aridez sentimental da modernidade. Em seu caso, pós-modernidade.

“Incompletos” consegue surpreender, feito louvável numa época em que, justamente pela ânsia de alcançar tal objetivo, nada mais surpreende. Composto de contos que, no entanto, pela uniformidade da temática e a exemplo do que acontece com o “Dubliners” de Joyce, o “Decameron” ou os “Canterbury Tales”, deixam um gosto de novela, foi dos poucos livros deste século que li com real interesse pelas personagens. Sim, pois, apesar do que espalham por aí, também às vezes tenho coração.

Porém, toda a admirável técnica do sr. Ribeiro no manejo das personagens e seu preciso estilo seriam embalde, caso não houvesse em “Incompletos” aquilo que, como disse antes, é uma das inúmeras pedras de tropeço de nossos coevos: humor, ironia, wit. O humor do sr. Ribeiro, já conhecido de seu livro de crônicas “Os melhores (e alguns dos piores) textos de Branco Leone” se mostra nesta nova obra de uma sofisticação quase pedante. Daí ter dito que o autor segue após Machado.

Também de Machado é sua atenção à micropsicologia, o delineamento do caráter dos protagonistas ou de sensações e sentimentos através de detalhes de pensamentos ou impressões fugazes, aparentemente gratuitos. E os diálogos? Os diálogos do sr. Ribeiro parecem querer dizer: “Eis aqui, rabaças da Mercearia São Pedro, como é que se escrevem diálogos.”

Há defeitos no livro? Inúmeros. Em primeiro lugar, o sr. Martins Ribeiro deveria deixar o trabalho de divulgação a cargo de outra pessoa. Sua incompetência para tal é assustadora. Intenta vender a obra como de “contos de sacanagem”, quando a única sacanagem nela é sua capa de péssimo gosto.

Em alguns contos, o final peca pelo excesso. Quando uma frase diria tudo, talvez por uma compulsão própria dos surdos, o sr. Ribeiro inventa de enfiar ali umas tantas graças despropositadas. Por fim, também ebiamente, replena as páginas de turpilóquios deslocados, às vezes dando-nos a impressão de que estamos assistindo a filme nacional da década de 70.

Afora isso, contudo, pode-se dizer de “Incompletos” aquilo que Bandeira disse da poesia de Lêdo Ivo: há nele “muita magia poética”.

FORMAÇÃO

dezembro 14, 2007

Quem quer que queira analisar a tradição, não apenas literária, mas da composição de textos no Brasil, jamais pode deixar de levar em conta que nossas melhores mentes iam estudar Direito em Portugal e voltavam de lá, com canudo na mão e anel vistoso no dedo, para pegar em chicote e bater em escravos.

ACORDEÃO

dezembro 12, 2007

Fico imaginando a máxima duchampiana de que arte é tudo aquilo que se chama de arte – peça de engodo que faz a cabeça vazia de onze em cada onze artistas plásticos e subletrados em geral – aplicada ao humor. “Humor é tudo aquilo que o sujeito chama de humor”, diria um seguidor do homem do penico, caso soubesse o que significa a palavra.

Então, estudantes de sociologia com suas bolsas de couro e sandálias de dedo entrariam numa galeria repleta de pedaços de lixo, garrafas, vibradores enfiados em torradeiras enferrujadas, anões mancos copulando com obesas paralíticas e outras atrações comumente expostas em bienais, mas em vez de porem caras de mais burros tentando parecerem eruditos, cairiam no chão, embolando de rir. E comentariam ao final: “Aquele acordeão furado sobre o banquinho com pintas roxas estava hilário!”

CONTRA-REVOLUÇÃO JÁ

dezembro 11, 2007

Quando vejo estes horrendos prédios paulistas, imitações baratas do neoclássico americano ou, pior, da breguice ominosa de Miami invenção mais recente dos filisteus , sou acometido por uma nostalgia profunda do Segundo Estado.

Nietzscheanas Nº 1

dezembro 10, 2007

Quem pode, pensa. Quem não pode, acredita e segue. O nosso, contudo, é um século tão medíocre que os que acreditam e seguem passaram a liderar.

Adenaldo Fulgêncio

dezembro 10, 2007

Adenaldo Fulgêncio lê jornal todos os dias. Tem emburrecido a olhos vistas.

INCOMPLETOS (1)

dezembro 9, 2007

Nada há de mais difícil para a filárgira compreensão do escritor brasileiro que a ironia. Para a maioria deles, trata-se de figura tão complexa quanto a anáfora ou a epístrofe: tem a intimidade defesa para além do conceito exposto num livro – não lido – de retórica ou teoria literária. Coisa espantosa para quem nasceu na terra de Machado de Assis. Se é que o velho não era inglês, bem entendido.

O escritor brasileiro põe Machado no céu, transforma-o em deus, pelo mesmo motivo que os cristãos alaram Jesus à condição divina: para evitar o desconforto que seria trilhar o caminho aberto por ele. Eis aí por que, em nossas escolas, não se fica sabendo quem são Sá de Miranda, Jerônimo Baía, Francisco Manuel de Melo, Filinto Elísio, Cruz e Silva ou Fialho de Almeida, para não avançarmos mais, e apenas em autores de língua portuguesa.

Pela mesma razão, o latim entre nós serve como recurso para rábulas (palavra que ganhou nova conotação nos últimos anos, após a abertura de cerca de um bilhão e novecentas escolas de Direito) e não para ler-se Horácio ou Juvenal. Para o brasileiro – e aqui falo da psicologia do nosso homem cordial em geral -, ironia, sátira, anecdote, wit, enfim, tudo o que moldura como “humor” é tachado de produção menor. Daí terem virado nomes nacionais embustes como Taunay e Alencar, ou, por outra, não existirem filósofos no país. Que Nietzsche nos chicoteie.

Via de regra, o escritor brasileiro quer quebrar com a tradição literária, ainda que ela nem mesmo tenha sido estabelecida. Não compreende, por exemplo, ser Veríssimo pai, em se tratando da técnica do romance clássico, nosso mais bem acabado prosador urbano (sim, urbano). Prefere, ao gaúcho, o lixo inqualificável em que se transformou a narrativa contemporânea. Afinal, se fosse para escrever de maneira enxuta e clara, sua estolidez escandalosa seria patente até aos iletrados.

Veríssimo não alcançou a glória ou, marca ainda mais distintiva, o cânone de Harold Bloom, em função dos diálogos pouco convincentes. Quanto à verossimilhança, os diálogos do gaúcho só perdem para os do presidente da República com o próprio ego. Aliás, eis aí outra categoria extremamente obscura para nossos escritores (os espaços em branco servem para o leitor colocar o número de aspas que acredite necessário). Quem tiver dúvidas que faça um esforço sobre-humano e vá a uma peça de Gerald Thomas ou a um filme de Cacá Diegues. Neles, os personagens falam como se estivessem lendo. O que não é crível, pois, como se sabe, o brasileiro não sabe ler.

Falo do diálogo, da ironia e acrescento aqui o sudário da vida psicológica das personagens para encerrar o trivium da ignorância de nosso romancista-padrão e abordar o livro “Incompletos”, que Albano Martins Ribeiro, o popular Surdo de Vila Madalena, acaba de lançar. Porém, tendo já esgotado a quantidade de vocábulos que o leitor médio domina, digo apenas que o sr. Martins Ribeiro segue após Machado de Assis. Se bem ou mal, esclareço em breve.

DO LIXO VIESTE

dezembro 7, 2007

Stockhausen morreu. Ufa! Já não era sem tempo.

AMOR

dezembro 6, 2007

Não raro, o que se chama amor é uma simples manifestação de fraqueza de caráter.


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