INCOMPLETOS (1)

By Nicomar Lael

Nada há de mais difícil para a filárgira compreensão do escritor brasileiro que a ironia. Para a maioria deles, trata-se de figura tão complexa quanto a anáfora ou a epístrofe: tem a intimidade defesa para além do conceito exposto num livro – não lido – de retórica ou teoria literária. Coisa espantosa para quem nasceu na terra de Machado de Assis. Se é que o velho não era inglês, bem entendido.

O escritor brasileiro põe Machado no céu, transforma-o em deus, pelo mesmo motivo que os cristãos alaram Jesus à condição divina: para evitar o desconforto que seria trilhar o caminho aberto por ele. Eis aí por que, em nossas escolas, não se fica sabendo quem são Sá de Miranda, Jerônimo Baía, Francisco Manuel de Melo, Filinto Elísio, Cruz e Silva ou Fialho de Almeida, para não avançarmos mais, e apenas em autores de língua portuguesa.

Pela mesma razão, o latim entre nós serve como recurso para rábulas (palavra que ganhou nova conotação nos últimos anos, após a abertura de cerca de um bilhão e novecentas escolas de Direito) e não para ler-se Horácio ou Juvenal. Para o brasileiro – e aqui falo da psicologia do nosso homem cordial em geral -, ironia, sátira, anecdote, wit, enfim, tudo o que moldura como “humor” é tachado de produção menor. Daí terem virado nomes nacionais embustes como Taunay e Alencar, ou, por outra, não existirem filósofos no país. Que Nietzsche nos chicoteie.

Via de regra, o escritor brasileiro quer quebrar com a tradição literária, ainda que ela nem mesmo tenha sido estabelecida. Não compreende, por exemplo, ser Veríssimo pai, em se tratando da técnica do romance clássico, nosso mais bem acabado prosador urbano (sim, urbano). Prefere, ao gaúcho, o lixo inqualificável em que se transformou a narrativa contemporânea. Afinal, se fosse para escrever de maneira enxuta e clara, sua estolidez escandalosa seria patente até aos iletrados.

Veríssimo não alcançou a glória ou, marca ainda mais distintiva, o cânone de Harold Bloom, em função dos diálogos pouco convincentes. Quanto à verossimilhança, os diálogos do gaúcho só perdem para os do presidente da República com o próprio ego. Aliás, eis aí outra categoria extremamente obscura para nossos escritores (os espaços em branco servem para o leitor colocar o número de aspas que acredite necessário). Quem tiver dúvidas que faça um esforço sobre-humano e vá a uma peça de Gerald Thomas ou a um filme de Cacá Diegues. Neles, os personagens falam como se estivessem lendo. O que não é crível, pois, como se sabe, o brasileiro não sabe ler.

Falo do diálogo, da ironia e acrescento aqui o sudário da vida psicológica das personagens para encerrar o trivium da ignorância de nosso romancista-padrão e abordar o livro “Incompletos”, que Albano Martins Ribeiro, o popular Surdo de Vila Madalena, acaba de lançar. Porém, tendo já esgotado a quantidade de vocábulos que o leitor médio domina, digo apenas que o sr. Martins Ribeiro segue após Machado de Assis. Se bem ou mal, esclareço em breve.

9 Respostas para “INCOMPLETOS (1)”

  1. Branco Leone Disse:

    “Dotô, eu levo ou deixo os pato?”

  2. Franciel Disse:

    “Via de regra” é buceta!

  3. Serbão Disse:

    quem é Fialho de Almeida???

  4. Começaram a falar no livro « Um blog sem conteúdo Disse:

    [...] de ler o livro mais uma vez, Nicomar escreveu também isto, que, tenho certeza, me deixará deveras lisonjeado assim que conseguir decifrar algumas [...]

  5. Biajoni Disse:

    não obstante, concordo abrangentemente que o discurso do conspícuo não seja abléfaro de todo.
    :>)

  6. Celso Disse:

    Alguém aí tem um dicionário para emprestar?
    Também serve um tradutor.

  7. INCOMPLETOS (2) « Antimarconi Leal Disse:

    [...] estilo seriam embalde, caso não houvesse em “Incompletos” aquilo que, como disse antes, é uma das inúmeras pedras de tropeço de nossos coevos: humor, ironia, wit. O humor do sr. [...]

  8. Três em um « Um blog sem conteúdo Disse:

    [...] preciso estilo seriam embalde(1), caso não houvesse em “Incompletos” aquilo que, como disse antes, é uma das inúmeras pedras de tropeço de nossos coevos(2): humor, ironia, wit(3). O humor do sr. [...]

  9. Suelen Disse:

    Celso, quando encontrar um dicionário ou um tradutor, empresta-me, por favor?

    Grata.

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