INCOMPLETOS (2)

By Nicomar Lael

Escreveu-me o sr. Martins Ribeiro cerca de um mês atrás, pouco antes de sair seu “Incompletos”, onusto de uma daquelas crises de insegurança própria de artistas, perguntando-me, a respeito do final de um conto, se deveria escrevê-lo utilizando hífens para os diálogos ou apenas separando as falas das personagens com vírgulas. Ora, sendo este último procedimento derivado de técnica moderna exaustivamente empregada pela subliteratura contemporânea, optei imediatamente pelo primeiro. Após ler e reler o seu livro e perceber que não acatou minha opinião, no entanto, vejo que errei. O que, apesar de raro, às vezes acontece.

Em “Incompletos”, o sr. Martins Ribeiro usa, não apenas desse, mas de outros recursos modernos, como do fluxo de consciência, por necessidade de expressão e não por hebetismo, como é o caso de onze em cada meio escritor brasileiro da atualidade. O resultado disso é, precisamente, o que os modernos queriam em 22 e que, tendo virado norma, tornou-se obsoleto: uma linguagem ágil que dá vazão à aridez sentimental da modernidade. Em seu caso, pós-modernidade.

“Incompletos” consegue surpreender, feito louvável numa época em que, justamente pela ânsia de alcançar tal objetivo, nada mais surpreende. Composto de contos que, no entanto, pela uniformidade da temática e a exemplo do que acontece com o “Dubliners” de Joyce, o “Decameron” ou os “Canterbury Tales”, deixam um gosto de novela, foi dos poucos livros deste século que li com real interesse pelas personagens. Sim, pois, apesar do que espalham por aí, também às vezes tenho coração.

Porém, toda a admirável técnica do sr. Ribeiro no manejo das personagens e seu preciso estilo seriam embalde, caso não houvesse em “Incompletos” aquilo que, como disse antes, é uma das inúmeras pedras de tropeço de nossos coevos: humor, ironia, wit. O humor do sr. Ribeiro, já conhecido de seu livro de crônicas “Os melhores (e alguns dos piores) textos de Branco Leone” se mostra nesta nova obra de uma sofisticação quase pedante. Daí ter dito que o autor segue após Machado.

Também de Machado é sua atenção à micropsicologia, o delineamento do caráter dos protagonistas ou de sensações e sentimentos através de detalhes de pensamentos ou impressões fugazes, aparentemente gratuitos. E os diálogos? Os diálogos do sr. Ribeiro parecem querer dizer: “Eis aqui, rabaças da Mercearia São Pedro, como é que se escrevem diálogos.”

Há defeitos no livro? Inúmeros. Em primeiro lugar, o sr. Martins Ribeiro deveria deixar o trabalho de divulgação a cargo de outra pessoa. Sua incompetência para tal é assustadora. Intenta vender a obra como de “contos de sacanagem”, quando a única sacanagem nela é sua capa de péssimo gosto.

Em alguns contos, o final peca pelo excesso. Quando uma frase diria tudo, talvez por uma compulsão própria dos surdos, o sr. Ribeiro inventa de enfiar ali umas tantas graças despropositadas. Por fim, também ebiamente, replena as páginas de turpilóquios deslocados, às vezes dando-nos a impressão de que estamos assistindo a filme nacional da década de 70.

Afora isso, contudo, pode-se dizer de “Incompletos” aquilo que Bandeira disse da poesia de Lêdo Ivo: há nele “muita magia poética”.

5 Respostas para “INCOMPLETOS (2)”

  1. Branco Leone Disse:

    Concluo: eu levo os pato. Mas antes vou atrás de turpilóquios, saber o que são. Mas levo os pato mesmo assim.

  2. Branco Leone Disse:

    Ah! Turpilóquios são bucetas!

  3. Três em um « Um blog sem conteúdo Disse:

    [...] já que estou no assunto é esse, Nicomar Lael continua a destrinchar o livro, superando-se a cada [...]

  4. Daniel Disse:

    Pluribunda sapiência é notável, por trás de tão encomiásticas parlendas.

  5. Branco Leone Disse:

    Tomou, papudo?

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